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Curiosidade

Os maiores prejuízos da história do trading (e a lição que sobra)

De Nick Leeson ao caso Archegos: os oito colapsos bilionários que provaram que o mercado não quebra ninguém — mas a falta de controle de risco, sim.

Equipe Trade Arena·07 de maio de 2026·7 min de leitura
Gráfico de queda dramática com velas vermelhas e dominós caindo

Em março de 2021, Bill Hwang acordou como um dos gestores mais respeitados de Wall Street. Quando o mercado fechou na segunda-feira seguinte, US$20 bilhões da sua fortuna pessoal haviam evaporado. Não em meses. Em 48 horas.

Hwang não era um iniciante desvairado. Era gestor experiente, com histórico de retornos extraordinários e acesso a linhas de crédito dos maiores bancos do mundo. E ainda assim, quando o mercado foi na direção contrária, não havia chão para conter a queda — porque não havia limites.

No post sobre os maiores lucros do trade do mundo, vimos como Soros, Tudor Jones e Livermore construíram fortunas com disciplina e timing. Aqui, o fio condutor é o inverso: o que acontece quando a disciplina desaparece.


Os oito maiores colapsos em números

Caso Cifra Ano
Bill Hwang / Archegos ~US$20 bi (pessoal) + US$10 bi+ (bancos) 2021
Jérôme Kerviel / Société Générale €4,9 bi (~US$7,2 bi) 2008
Brian Hunter / Amaranth Advisors US$6,0–6,5 bi 2006
Bruno Iksil / JPMorgan (London Whale) US$6,2 bi 2012
LTCM US$4,6 bi 1998
Yasuo Hamanaka / Sumitomo US$2,6 bi (até ~US$4 bi) 1996
Kweku Adoboli / UBS US$2,3 bi 2011
Nick Leeson / Barings Bank £827 mi (~US$1,4 bi) 1995

Nick Leeson e o Barings Bank — £827 milhões · 1995

Fundado em 1762, o Barings Bank tinha financiado guerras napoleônicas e figurava como o banco da família real britânica. Durou 233 anos. Nick Leeson, 28, foi suficiente para acabar com tudo em alguns meses.

Leeson operava a filial de Cingapura, encarregado de fazer arbitragem de baixo risco entre contratos Nikkei em duas bolsas. Mas quando os primeiros erros apareceram, em vez de reportar, ele abriu uma conta oculta — a Conta 88888 — e começou a esconder as perdas. Quando o terremoto de Kobe de janeiro de 1995 derrubou o Nikkei, Leeson não cortou: dobrou. E redobrou. As posições chegaram a US$27 bilhões em contratos futuros. Em 23 de fevereiro ele fugiu. Três dias depois, o Barings declarou insolvência e foi vendido ao banco ING por £1 simbólica. Leeson cumpriu 6,5 anos de prisão em Cingapura.

O erro fatal não foi o terremoto. Foi que Leeson controlava tanto a mesa de operações quanto o back-office — sem nenhuma segregação. Era como deixar um árbitro jogar pelo time que ele apita.


Jérôme Kerviel e o Société Générale — €4,9 bilhões · 2008

Considerado até hoje o maior prejuízo causado por um único trader, o caso Kerviel é uma aula sobre como os controles internos podem ser contornados — e sobre como as instituições ignoram alertas quando os números parecem bons.

Trader de derivativos de índices europeus no SocGen, Kerviel construiu ao longo de 2007-2008 posições direcionais não autorizadas que chegaram a €49,9 bilhões — mais do que o valor de mercado do próprio banco. Para disfarçar, criou mais de mil transações fictícias de hedge. A bolsa alemã Eurex chegou a enviar alertas ao banco sobre as posições suspeitas. O SocGen não investigou.

Quando as posições foram descobertas em janeiro de 2008, o banco levou três dias para liquidar tudo — em plena queda de mercado — e cristalizou uma perda de €4,9 bilhões. Kerviel foi condenado a 5 anos de prisão (2 suspensos). Em 2014, um tribunal francês reconheceu responsabilidade do próprio banco e cancelou a obrigação de Kerviel reembolsar os €4,9 bi; ele pagou €1 milhão.

"Você não precisa ser um gênio para perceber que €49 bilhões em posições num trader de derivativos era algo fora do normal. O banco recebeu alertas e escolheu não olhar."


LTCM — US$4,6 bilhões · 1998

Se algum fundo deveria ter funcionado, era o Long-Term Capital Management. Fundado por John Meriwether, reunia dois Nobel de Economia (Myron Scholes e Robert Merton, criadores da fórmula Black-Scholes) e ex-diretores do Federal Reserve. A estratégia era elegante: arbitragem de convergência em bonds soberanos, apostando que spreads voltariam à média histórica.

Funcionou — até a Rússia dar calote em agosto de 1998 e o mercado quebrar todos os modelos.

O problema real não era a estratégia: era a alavancagem de 250:1. US$400 milhões de capital próprio contra US$100 bilhões em passivos e US$1,25 trilhão em derivativos (nocional). Quando os mercados se correlacionaram de formas que os modelos não previam, o fundo perdeu US$4,6 bilhões em menos de quatro meses. O Federal Reserve de Nova York teve que coordenar um resgate de US$3,625 bilhões por 14 bancos — que receberam 90% do fundo em troca. O LTCM encerrou em 2000.

A lição mais dura: dois Nobel de Economia não preveniram o colapso. O modelo não incluía a possibilidade de um default soberano russo. O mercado, sim.


Brian Hunter e o Amaranth Advisors — US$6 a 6,5 bilhões · 2006

Em 2005, Brian Hunter era o herói do Amaranth Advisors. Com 32 anos, apostou que o furacão Katrina elevaria os preços do gás natural — e lucrou uma fortuna. Em 2006, repetiu a estrutura: long em contratos de inverno, short nos de verão e outono.

O mercado foi na direção oposta. Os preços do gás despencaram de US$8 para US$5 por BTU em semanas, por causa de estoque alto e temperatura mais amena. Em menos de duas semanas de setembro de 2006, o fundo perdeu o equivalente a dois terços de seus US$9,25 bilhões sob gestão.

O detalhe que piora tudo: Hunter havia acumulado posições tão grandes que chegava a movimentar o próprio mercado de gás natural. Quando tentou sair, o mercado sentiu. A CFTC multou Hunter em US$30 milhões por manipulação de mercado. O fundo foi liquidado em semanas.

Nota: fontes divergem entre US$6 bi e US$6,5 bi — Wikipedia e CNN/Fortune citam valores diferentes em momentos distintos do colapso.


Bruno Iksil, o "London Whale" — US$6,2 bilhões · 2012

O apelido surgiu porque as posições de Bruno Iksil em credit default swaps eram grandes o suficiente para mover o mercado inteiro. Trader do escritório de investimentos do JPMorgan em Londres, Iksil apresentava suas apostas internamente como "hedge" — proteção contra riscos do banco. Na prática, eram posições direcionais de altíssimo risco.

Em abril de 2012 a perda inicial reportada foi de US$2 bilhões. Em julho, revisada para US$5,8 bilhões. O número final: US$6,2 bilhões. O JPMorgan pagou US$920 milhões em multas regulatórias. O CEO Jamie Dimon teve o bônus cortado pela metade.

O agravante: modelos internos de risco foram alterados para minimizar as perdas reportadas no VaR enquanto o problema crescia. A estratégia de "hedge" havia virado especulação, e a supervisão interna não reconheceu — ou não quis reconhecer — a diferença.


Yasuo Hamanaka e a Sumitomo — US$2,6 bilhões · 1996

Por mais de dez anos, Yasuo Hamanaka acumulou uma posição que nenhum regulador deveria ter permitido: o controle de 93% dos warrants de cobre da London Metal Exchange em novembro de 1995. O apelido era "Mr. Copper". A realidade era que um único trader de uma empresa japonesa de comércio havia, na prática, monopolizado o mercado mundial da commodity.

Para esconder os prejuízos que acumulava no caminho, Hamanaka forjou documentos por uma década. A Sumitomo anunciou perdas de US$1,8 bilhão em junho de 1996; o número final consolidou em US$2,6 bilhões — e fontes internas chegaram a citar até US$4 bilhões quando processos subsequentes foram contabilizados. Hamanaka foi condenado a 8 anos de prisão em Tóquio por fraude e falsificação.

O escândalo mostrou que um único operador pode distorcer os preços globais de uma commodity durante anos — desde que ninguém queira olhar.


Bill Hwang e o Archegos — US$20 bilhões pessoais · 2021

O colapso mais recente e mais espetacular da lista. O Archegos Capital Management era um family office — estrutura que dispensa registro na SEC e reporting público de posições. Hwang usou isso de forma cirúrgica.

Através de total return swaps (derivativos OTC), acumulou posições alavancadas em ações como ViacomCBS, Discovery e ADRs chinesas sem que os bancos soubessem que ele fazia as mesmas apostas com todos eles simultaneamente. Estimativas apontam para US$100 bilhões em posições totais com alavancagem de 5:1 a 8:1.

Em março de 2021, a ViacomCBS anunciou uma oferta de ações. O papel caiu. As chamadas de margem vieram. Em 48 horas, a fortuna pessoal de Hwang evaporou US$20 bilhões. Os bancos correram para liquidar colaterais, causando perdas combinadas superiores a US$10 bilhões: Credit Suisse (US$5,5 bi — um dos fatores que acelerou seu colapso em 2023), Nomura (US$2,85 bi), Morgan Stanley (~US$900 mi), UBS (~US$774 mi). Hwang foi condenado em 2024 por fraude e extorsão.


Kweku Adoboli e o UBS — US$2,3 bilhões · 2011

Diretor da equipe Global Synthetic Equities do UBS em Londres, Adoboli fez apostas não autorizadas em futuros de índices — S&P 500, DAX, EuroStoxx — ao longo de três meses, inserindo transações fictícias no sistema para ocultar as posições reais. Quando as perdas vieram à tona em setembro de 2011, o prejuízo era de US$2,3 bilhões.

Foi o maior prejuízo causado por fraude de trader na história do UBS e um dos maiores no Reino Unido. Adoboli foi condenado a 7 anos de prisão em novembro de 2012. O método era quase idêntico ao de Nick Leeson dezesseis anos antes: acesso simultâneo ao front e back office, sem segregação real. Três anos após a crise de 2008, os grandes bancos ainda não tinham consertado o básico.

Representação artística de colapso financeiro com gráficos em queda e fragmentos de notas se dissolvendo
Oito colapsos. Oito versões do mesmo padrão — imagem gerada por IA

O que esses desastres ensinam

Oito casos. Décadas diferentes. Mercados diferentes — futuros de Nikkei, bonds soberanos, gás natural, cobre, credit default swaps, ações alavancadas. E um padrão que se repete com precisão assustadora.

A primeira perda foi pequena. Leeson poderia ter reportado os primeiros erros em Cingapura e ficado com o emprego. Kerviel poderia ter encerrado as posições enquanto ainda havia margem. Hunter poderia ter cortado quando o gás caiu 10%. Em todos os casos, a tragédia não começou grande — começou gerenciável, e virou catástrofe porque ninguém cortou.

A alavancagem amplifica tudo — inclusive o erro. O LTCM tinha os melhores modelos do mundo e dois Nobel de Economia. Hwang tinha décadas de experiência em mercados. O que os derrubou não foi falta de inteligência: foi alavancagem de 250:1 (LTCM) e derivativos OTC que ninguém enxergava (Archegos). Alavancagem não decide a direção do mercado; ela só amplifica o resultado, qualquer que seja ele.

Controles internos existiam no papel. O SocGen recebeu alertas da Eurex sobre as posições de Kerviel e não investigou. A Sumitomo ficou dez anos sem perceber que um trader controlava 93% do mercado global de cobre. O JPMorgan alterou seus próprios modelos de VaR para minimizar o que o London Whale reportava. Os controles existiam — mas viraram teatro.

O sucesso anterior criou impunidade. Hunter gerou centenas de milhões em 2005. Hwang tinha histórico extraordinário. Kerviel mostrava lucros que os chefes não queriam questionar. O "trader estrela" cria uma zona de proteção onde as perguntas normais param de ser feitas. E quando o ciclo quebra, a queda é proporcional ao tempo que passou sem supervisão real.

Nenhum desses casos foi azar. O mercado foi na direção contrária — como mercados fazem. O que transformou um movimento de mercado normal em colapso bilionário foi a ausência de limite. Sem stop. Sem perda máxima definida. Sem segregação de funções. Sem ninguém de fora olhando.

Existe uma ironia curiosa nessas histórias: os maiores prejuízos da história do trading aconteceram com acesso ilimitado a capital, sem regras de perda máxima e sem fiscalização real. O trader que quebrou um banco de 233 anos não tinha teto. O que evaporou US$20 bilhões em dois dias não tinha limite de alavancagem visível para ninguém.

Na Conta Safe e nos torneios da Arena, o risco máximo está definido antes da primeira operação. Não existe margem infinita, não existe "dobrar a aposta para recuperar". O jogo tem regras — e as regras existem exatamente para que um movimento de mercado ruim fique sendo um movimento de mercado ruim, e não vire um colapso.


Fontes

#curiosidades#gestão de risco#mercado financeiro
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