Os maiores lucros da história do trading (e o que aprender com eles)
De US$1 bilhão numa única tarde a US$16 bilhões num ano em que o mercado desabava — os trades mais épicos da história têm algo em comum que não é sorte.

Era uma quarta-feira de setembro de 1992. O Banco da Inglaterra havia elevado os juros de 10% para 15% num único dia — uma medida desesperada para defender a libra esterlina de um ataque especulativo. Centenas de funcionários trabalhavam em turnos sem parar. O Primeiro-Ministro britânico interrompeu férias e convocou reunião de emergência. Do outro lado da mesa, metaforicamente, estava um único homem com uma posição de US$10 bilhões apostando que o governo perderia.
O governo perdeu. Em poucas horas, a libra saiu do Mecanismo de Taxas de Câmbio Europeu e o Quantum Fund de George Soros embolsou pelo menos US$1 bilhão — provavelmente US$1,4 bilhão quando contabilizadas todas as posições correlatas.
Esse episódio ficou conhecido como "Quarta-feira Negra". Para Soros, foi a tarde mais lucrativa de sua vida.
Mas não foi o maior trade da história.

Os números que definem a história
Antes de entrar nos bastidores de cada operação, uma visão geral do que estamos falando:
| Trader / Caso | Cifra | Ano |
|---|---|---|
| George Soros & Druckenmiller — short da libra | ~US$1–1,4 bilhão (fundo) | 1992 |
| John Paulson — short do subprime (fundo) | >US$15 bilhões brutos | 2007 |
| John Paulson — ganho pessoal | ~US$4 bilhões | 2007 |
| Jesse Livermore — short do crash de 1929 | ~US$100 mi (~US$1,9 bi em valores de hoje) | 1929 |
| Jim Simons / Fundo Medallion | 66,1% a.a. bruto por 30 anos / >US$100 bi acumulado | 1988–2018 |
| Paul Tudor Jones — Black Monday | ~200% no ano / ~US$100 mi | 1987 |
| David Tepper — aposta nos bancos pós-crise | ~US$7 bi (fundo) / ~US$4 bi (pessoal) | 2009 |
| Andrew Krieger — short do dólar neozelandês | ~US$300 mi para o Bankers Trust | 1987 |
| Ken Griffin / Citadel — recorde histórico absoluto | US$16 bilhões (fundo) / US$4,1 bi (pessoal) | 2022 |
Nenhum desses números caiu do céu. Cada um tem uma história — e uma lição.
Soros e Druckenmiller: quando a tese vale US$1 bilhão
A ideia original foi de Stanley Druckenmiller, então gestor do Quantum Fund. Ele percebeu que a libra estava artificialmente atrelada ao marco alemão dentro do Mecanismo de Taxas de Câmbio Europeu — uma paridade que não fazia sentido dado o estado real da economia britânica. O governo pagaria um custo enorme para defender aquela taxa. E eventualmente não conseguiria.
Quando Druckenmiller apresentou o plano a Soros — colocar 100% do fundo na operação —, Soros teve uma resposta memorável:
"Por que não 200%?"
A posição vendida cresceu para mais de US$10 bilhões. Na noite de 16 de setembro de 1992, o governo britânico capitulou. A libra desvalorizou, saiu do ERM, e o Quantum Fund registrou um dos dias mais rentáveis da história dos mercados.
O detalhe que poucos sabem: boa parte dos ganhos veio não só do câmbio, mas de posições em ações e títulos britânicos que Druckenmiller havia montado junto — sabendo que a saída do ERM forçaria o Banco da Inglaterra a cortar juros, o que faria essas posições disparar. Era um trade multidimensional, não uma aposta simples.
John Paulson: o maior trade da história (até então)
Em 2006, John Paulson era um gestor de hedge fund relativamente obscuro em Nova York. Enquanto todo Wall Street ainda apostava na alta do mercado imobiliário americano, ele começou a fazer uma pergunta diferente: e se as hipotecas subprime forem lixo embrulhado em papel de presente?
Paulson contratou analistas para dissecar hipoteca por hipoteca. O que encontraram foi alarmante: empréstimos concedidos a pessoas sem renda verificável, com taxas variáveis que triplicariam em poucos anos, embrulhados em produtos financeiros com rating AAA. A bolha não apenas existia — estava prestes a explodir.
A ferramenta que escolheu foi o credit default swap (CDS) sobre hipotecas subprime: um instrumento que pagaria se os tomadores dessem calote. O downside era limitado ao prêmio pago. O upside era quase ilimitado.
Quando a bolha estourou em 2007, os CDSs de Paulson foram de quase zero a fortunas. Um único CDS de US$22 milhões contra o Lehman Brothers pagou mais de US$1 bilhão quando o banco quebrou em 2008. O fundo Paulson & Co gerou mais de US$15 bilhões brutos naquele ano. Paulson pessoalmente embolsou cerca de US$4 bilhões — quebrando todos os recordes de remuneração do setor.
Gregory Zuckerman documentou a história no livro The Greatest Trade Ever. O título não é exagerado.
Jesse Livermore: o short de 1929 — e a tragédia
Antes de Soros, antes de Paulson, houve Jesse Livermore — o trader que em 1929 ficou conhecido como "O Lobo de Wall Street" e que usou métodos que seriam reconhecíveis para qualquer trader moderno.
Em meados de 1929, enquanto o mercado americano vivia uma euforia sem precedentes, Livermore começou a montar uma posição vendida massiva. Sabia que seria identificado e pressionado se concentrasse tudo num único corretor. Então usou mais de 100 corretoras diferentes, distribuindo a posição de forma que ninguém conseguisse ver o tamanho real da aposta.
Na quebra de outubro de 1929, enquanto o mundo perdia fortunas, Livermore lucrou aproximadamente US$100 milhões — equivalente a cerca de US$1,9 bilhão em valores de 2026. Tornou-se instantaneamente uma das pessoas mais ricas dos Estados Unidos. As ameaças de morte foram tantas que precisou contratar guarda-costas.
A história não termina bem. Em cinco anos, Livermore perdeu toda a fortuna. Faliu em 1934 e morreu em 1940. O trade foi extraordinário. O controle emocional do que veio depois, não.
Paul Tudor Jones: previu o crash antes de acontecer
Em 1987, Paul Tudor Jones fez algo incomum: estudou crashes históricos do mercado americano procurando padrões gráficos que se repetiam. O que encontrou apontava para um colapso iminente.
Em 19 de outubro de 1987 — a "Segunda-Feira Negra" — o Dow Jones caiu 22,6% em um único dia, a maior queda percentual diária da história da bolsa americana. Jones estava posicionado vendido em futuros do S&P 500. Só em outubro, seu fundo Tudor BVI retornou 62%. No ano de 1987 como um todo: aproximadamente 200% bruto.
A história tem um detalhe fascinante: um documentário da PBS chamado Trader filmou Jones prevendo o crash antes de ele acontecer. Nas décadas seguintes, Jones comprou praticamente todas as cópias disponíveis do documentário para que ninguém visse seus métodos.
Andrew Krieger: o trader que assustou um país inteiro
Na mesma semana do Black Monday de 1987, o jovem trader Andy Krieger, de 32 anos, identificou que o dólar neozelandês estava artificialmente valorizado em relação ao estado real da economia do país.
O que fez a seguir foi extraordinário. Usando opções cambiais com alavancagem de até 400:1, Krieger montou uma posição vendida que chegou a exceder o tamanho de toda a oferta de dinheiro da Nova Zelândia em circulação. Quando o kiwi despencou cerca de 5%, o Bankers Trust lucrou aproximadamente US$300 milhões.
O Banco Central da Nova Zelândia ligou pessoalmente para o Bankers Trust para reclamar. O banco pagou a Krieger um bônus de US$3 milhões pelo feito. Krieger considerou um insulto e pediu demissão em 1988.
David Tepper: comprou quando todos queriam fugir
Março de 2009. O S&P 500 estava no fundo do poço. Os grandes bancos americanos estavam à beira da nacionalização ou do colapso. O medo era total.
David Tepper fez a aposta oposta. Sua tese era simples e contrária ao consenso: o governo americano não deixaria os bancos sistêmicos quebrar. Comprou ações do Bank of America abaixo de US$3 e do Citigroup abaixo de US$1.
Estava certo. O Appaloosa Management lucrou aproximadamente US$7 bilhões em 2009, retornando 132% no ano. Tepper pessoalmente embolsou cerca de US$4 bilhões — tornando-se o gestor de hedge fund mais bem pago do mundo naquele ano, segundo o New York Times.
Jim Simons: a consistência que supera todos os trades épicos
Enquanto os outros cases desta lista envolvem operações específicas em momentos históricos, Jim Simons construiu algo diferente: um sistema.
O ex-matemático e decifrador de códigos da NSA fundou a Renaissance Technologies e criou o Fundo Medallion em 1988. O resultado ao longo de 30 anos é o número mais impressionante desta lista inteira: retorno médio bruto de 66,1% ao ano, ou 39,1% líquido após as taxas absurdas de 5% fixa + 44% sobre lucros. Nenhum outro fundo jamais chegou perto.
O Fundo Medallion acumulou mais de US$100 bilhões em lucros de trading entre 1988 e 2018 — mais do que qualquer trade individual lendário da história.
O Medallion está fechado a investidores externos. Apenas funcionários da Renaissance podem investir. As estratégias quantitativas e algoritmos proprietários nunca foram totalmente revelados. Simons construiu não um trade, mas uma máquina.
Ken Griffin: o recorde absoluto de 2022
Em 2022, enquanto o S&P 500 perdia quase 20% e o mercado de títulos sofria seu pior ano em décadas, Ken Griffin e a Citadel navegaram o caos com precisão cirúrgica.
O fundo Wellington entregou retorno de 38,1%, gerando US$16 bilhões em lucros para os investidores — o maior ganho anual de qualquer hedge fund na história, superando o recorde de US$15 bilhões de Paulson em 2007. Griffin pessoalmente embolsou US$4,1 bilhões — o maior valor registrado na lista anual da Institutional Investor em seus 22 anos de história.
A estratégia multi-estratégia da Citadel combina macro, renda fixa, ações quantitativas e market making simultaneamente. Quando um setor sofre, outro compensa. Quando o mercado entra em colapso e a volatilidade explode, o market making lucra.

O que esses números ensinam
É tentador olhar para esses trades e ver sorte, timing ou acesso privilegiado. A narrativa é mais simples e mais útil do que isso.
Convicção nascida de análise, não de intuição. Em todos os casos, o trader tinha uma tese estrutural sólida construída antes de montar posição. Druckenmiller estudou meses a mecânica do ERM. Paulson contratou analistas para dissecar hipoteca por hipoteca. Jones estudou décadas de dados históricos de crashes. A coragem de agir veio depois do estudo — não antes.
Risco assimétrico: o downside limitado, o upside enorme. Paulson usou CDSs que limitavam a perda máxima ao prêmio pago enquanto o upside era teórico. Krieger usou opções de câmbio para controlar a exposição. Nenhum desses traders colocou "tudo ou nada" numa aposta cega — todos estruturaram operações onde a desvantagem era conhecida e aceitável.
Paciência e timing são habilidades, não acidente. Jones ficou meses construindo análise antes de agir. Tepper comprou no pico do pânico, quando todo racional superficial indicava o contrário. Livermore esperou o momento exato para apertar o gatilho. Em todos os casos, a paciência para não agir antes da hora foi tão importante quanto a convicção de agir quando chegou.
Escalar quando a tese está sólida. Quando Druckenmiller sugeriu 100% do fundo na libra, Soros respondeu: "Por que não 200%?" O dimensionamento correto de posição — colocar peso real onde a análise é mais sólida — é uma das habilidades mais subestimadas no trading. Pequenas apostas em grandes teses geram retornos medianos.
A consistência supera o home run isolado. Jim Simons nunca teve "o trade da vida" de Paulson ou Soros. Construiu um sistema que gerou 66% ao ano durante 30 anos. O resultado acumulado superou qualquer operação individual desta lista. Processo robusto bate aposta pontual — sempre.
E a lição que a trajetória de Livermore ensina da forma mais dura: o trade perfeito não salva quem não tem gestão de risco e controle emocional no longo prazo. Livermore ganhou US$100 milhões em 1929 e perdeu tudo em cinco anos. O método que funcionou numa operação precisa funcionar sistematicamente — ou não funciona de verdade.
Por trás de cada número épico desta lista há anos de trabalho, método repetido sob pressão, e risco calculado antes da convicção. Nenhum desses traders nasceu pronto. Todos começaram errando, refazendo sistemas, testando hipóteses — e operando, com consequências reais, até que o método ficasse sólido.
Fontes
- Priceonomics — The Trade of the Century: When George Soros Broke the British Pound
- Fortunly — George Soros and The Bank of England: A Gamble That Paid Off
- Focus Distribution — Layers of Conviction: Soros and Druckenmiller shorting the pound
- NPR — How George Soros forced the UK to devalue the pound
- Wikipedia — John Paulson
- CNBC — The Man Who Made Too Much
- Newsweek — Hedge-Fund Manager John Paulson's Greatest Trade Ever
- GFF Brokers — Jesse Livermore's Massive $100 Million Short of 1929
- Wikipedia — Jesse Livermore
- in2013dollars.com — $100M em 1929 em valores de 2026 (BLS CPI)
- Wikipedia — Jim Simons
- Wikipedia — Renaissance Technologies
- Visual Capitalist — The Growth of $100 Invested in Jim Simons' Medallion Fund
- Wikipedia — Paul Tudor Jones
- New Trader U — Paul Tudor Jones: Black Monday 1987
- Yahoo Finance — Legendary investor who made ~$100 million on 1987 crash
- Dave Manuel — David Tepper of Appaloosa Management Made an Estimated $4 Billion in 2009
- Wikipedia — David Tepper
- Earn2Trade — Andy Krieger: The Trader Who Made a Fortune Shorting the Kiwi
- Medium/The Duomo Initiative — $300 Million Profit in One Forex Trade
- Fortune — How Ken Griffin's Citadel soared to a $16 billion return in 2022
- Institutional Investor — The Rich List: 22nd Annual Ranking
- Crain's Chicago Business — Ken Griffin's Citadel makes record $16 billion profit
